Em 16 de outubro, a Polícia Civil da Paraíba prendeu em João Pessoa um homem suspeito de levar celulares de uma loja usando comprovantes falsos de Pix. Dias depois, em 21 de outubro, veio a notícia de uma hamburgueria em Dourados, no Mato Grosso do Sul, que perdeu cerca de R$ 1,5 mil com o mesmo tipo de golpe. Os dois casos mostram que o falso Pix continua mirando o pequeno comércio.
O que aconteceu
Em João Pessoa, o dono de uma loja no Shopping Terceirão vendeu dois celulares depois de receber comprovantes de Pix pelo WhatsApp. Os comprovantes eram falsificados. Segundo a Polícia Civil, a fraude só apareceu quando o mesmo homem voltou para comprar um terceiro aparelho. A polícia acompanhou a entrega e prendeu o suspeito em flagrante quando ele recebeu o produto.
Em Dourados, o dono da hamburgueria recebeu um comprovante falso de R$ 280 por um pedido de lanche e percebeu quando a entrega já estava a caminho. Dois homens foram autuados por tentativa de estelionato. O comerciante contou que outros pedidos já tinham sido feitos para o mesmo endereço sem que ele notasse nada, e por isso estima o prejuízo total em R$ 1,5 mil.
O roteiro é o mesmo nos dois casos: o cliente manda uma imagem que parece um comprovante, o vendedor confia na imagem e entrega a mercadoria, mas o dinheiro nunca chega à conta.
O outro golpe: a devolução de Pix
Existe uma segunda armadilha, que usa o próprio sistema de segurança do Pix. Ela envolve o MED, sigla de Mecanismo Especial de Devolução: é o caminho que os bancos usam para bloquear e devolver dinheiro quando alguém diz que foi vítima de golpe.
Segundo a Agência Brasil, o golpe funciona assim:
- O golpista faz um Pix de verdade para a loja.
- Depois, diz que pagou errado e pede que o comerciante devolva o valor com um novo Pix, muitas vezes para outra chave.
- Em seguida, ele aciona o MED no banco dele e diz que o pagamento original foi fraude.
Se o banco aceitar a contestação, o comerciante perde duas vezes: o dinheiro que devolveu e o valor da venda.
Para dar mais tempo de defesa a quem passa por isso, o Banco Central mudou a regra em 1º de setembro. Quem recebeu um Pix legítimo e teve o valor devolvido por uma contestação falsa agora tem 80 dias para contestar essa devolução, contados a partir da data em que ela aconteceu. Antes, eram 30 dias. A mudança está na Instrução Normativa BCB 766.
O Banco Central também vem reforçando o MED. Desde fevereiro, o sistema consegue seguir o caminho do dinheiro quando ele passa por outras contas. Uma etapa nova, de comunicação entre os bancos, foi marcada para 26 de outubro. Mesmo assim, a devolução não é garantida: se o dinheiro já foi sacado ou transferido de novo, pode não haver o que recuperar.
Por que isso importa para quem tem um pequeno negócio
O Pix virou o caixa de muita gente. Segundo o Sebrae, ele é usado por 96% dos pequenos negócios. Uma pesquisa do Sebrae com a FGV mostra que o golpe do Pix é citado por 30% dos empreendedores como uma das fraudes digitais que mais preocupam.
Os golpistas apostam na correria do balcão e da entrega. Um comprovante bem feito, enviado na hora certa, passa sem ninguém conferir. E quem faz delivery ou vende por WhatsApp está mais exposto, porque nunca vê o cliente pessoalmente.
O que fazer agora
- Confira no aplicativo do banco, não no comprovante. Só libere a mercadoria quando o valor aparecer no extrato da sua conta. Uma imagem de comprovante não prova que o dinheiro chegou.
- Combine isso com a equipe. Quem atende o WhatsApp, quem fecha o caixa e quem despacha a entrega precisam seguir a mesma regra, sem exceção para cliente com pressa.
- Fique atento a pedidos repetidos para o mesmo endereço ou para o mesmo número, principalmente quando o valor é alto ou quando a pessoa insiste em mandar o comprovante antes de você conferir.
- Nunca devolva com um Pix novo. Se alguém disser que pagou errado, use a opção de devolução que fica dentro da própria transação, no aplicativo do banco. Essa é a recomendação citada pela Agência Brasil. Não mande dinheiro para uma chave que a pessoa informar.
- Guarde as provas de cada venda: dados da conta que pagou, conversas, anúncios e qualquer documento da negociação. Eles servem para contestar uma devolução indevida.
- Se cair no golpe, procure o banco o quanto antes. O prazo é de 80 dias, mas quanto mais rápido, maior a chance de ainda haver dinheiro para bloquear. Dependendo do caso, registre também um boletim de ocorrência.
Resumindo
Comprovante não é pagamento: confira sempre no extrato. Pedido de devolução se faz pela própria transação, nunca com um Pix novo. E, se mesmo assim o dinheiro for tirado da sua conta por uma contestação falsa, você agora tem 80 dias para se defender.
Fontes
- Polícia Civil prende suspeito de aplicar golpe do falso Pix contra comerciante em João Pessoa, WSCOM, 17 de outubro de 2026
- Dono de hamburgueria sofre golpe do falso Pix e tem prejuízo de R$ 1,5 mil em Dourados, O Estado Online, 21 de outubro de 2026
- Nova regra do Pix amplia prazo para contestar golpe, Agência Brasil, 1 de setembro de 2026
- Golpe do Pix: como funciona a nova regra do Banco Central que ajuda a proteger pequenos negócios?, Seu Dinheiro, 2 de setembro de 2026